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[15.2.06]
A Loja de Cristais
Numa loja de cristais era tudo magnífico e divino. Havia todo o tipo de cor refletida nas paredes, muitas luzes vibrantes e som de nascer do sol ecoado lá dentro daquele lugar. Poucas pessoas entravam naquele local, somente as de muito esmero e confiança podiam entrar ali. Muitos dos cristais não podiam ser tocados tamanha delicadeza que havia neles. No balcão da loja, porém existia uma caixa bem grande, de cristal translúcido onde qualquer um que ali passasse poderia dela retirar ou colocar idéias escritas em pequeno pedaço de papel. Era uma loja misteriosa.
Tudo que podia ser visto por todos era sua vitrine, com grandes cristais azuis que observavam os transeuntes da calçada como olhos aguçados, porém desfocados. Na rua daquela loja, morava um garotinho. Daqueles bem arteiros de estilingue no bolso e bolinhas de gude num saquinho. Um dia o garotinho quis muito, conhecer a loja. Mas quando foi entrar o dono da loja o impediu.
- Para entrar nessa loja, você deve ser muito cuidadoso, menino! - Disse ele medindo o menino.
O menino pensou, pensou e entregou ao dono o seu estilingue.
- Esse é o meu passado moço, eu me arrependo dele. Tome, pode ficar. Não quebrarei mais nada.
O dono então olhou nos olhos do menino, e viu um brilho que pensou ser sinceridade.
- Está bem, você pode entrar, mas eu ficarei ao seu lado para garantir que seja cuidadoso. - Ele devolveu o estilingue ao menino dizendo. - Você não pode se livrar do seu passado, mas é importante que aprenda com os erros.
Ele acompanhou o menino de olhos brilhantes através dos cristais da loja. Passaram por bailarinas e piratas de cristal, passaram por jogos de jantar e taças. As cores refletidas nos cristais eram como um sonho. O menino deixou algumas idéias na grande caixa do balcão e sorriu satisfeito por o dono tê-lo deixado entrar. O dono o olhou por cima dos óculos esperando que ele fosse embora, mas o menino se conteve.
- Posso voltar outro dia?
- Talvez...
Assim o menino voltou no dia seguinte e no outro. Cada vez mais encantado com a loja e com cada cristal que via. A loja não parecia ter muitos compradores. Muitos paravam para olhar a vitrine, muitos a ignoravam totalmente. Alguns eram barrados na porta e outros só passavam pra deixar ou pegar idéias. Um casal mais velho e outro mais jovem eram presenças quase que constante. Estes queriam sempre saber do cristal que o dono guardava com mais esmero em uma das gavetas atrás do balcão. Mas era sempre o mesmo, o dono o escondia e dizia que estava bem e continuava sempre o mesmo. E como sempre, no fim de sua visita, o menino ia até a caixa para deixar ou pegar idéias. Até que um dia o dono se encontrou novamente encarado pelo sorriso do menino de olhos brilhantes.
- Posso ver o cristal que esta em sua gaveta?
- Ninguém pode vê-lo quando estou atento.
- Por favor senhor, eu me arrependi dos meus erros, eu venho a esta loja todos os dias porque é o lugar que eu sinto onde minha felicidade está. Eu não faria nada para lográ-lo.
O dono da loja o olhou novamente sobre os óculos. Sem mencionar palavra, abriu a gaveta e retirou de lá uma caixa aveludada. Abriu a caixa e o menino pode ver. Era um cristal com o brilho mais intenso e as cores mais vibrantes que já havia visto. Tinha o formato de um coração e pulsava como tal. Era de fato a alma daquele lugar. O menino admirado só foi interrompido de seu torpor quando o dono fechou a caixa novamente e a guardou. Atordoado ele se foi rua afora. Gritando feito doido feliz pelas ruas. O que fez o dono rir, sentindo orgulho da sensação que sua loja causara no menino.
Desde então quando o menino entrava na loja, o dono não o acompanhava mais. Havia confiança nos atos do menino, sempre muito cuidadoso com os cristais. Mas o menino não estava satisfeito. Começou a querer todas as coisas da loja, todos os brilhos turvos e cores sinuantes. Porém quando quis comprar algo o dono o deteve.
- Estas coisas não estão prontas para serem suas e nem você está pronto para elas.
O brilho nos olhos do menino mudou.
- Tudo bem... - disse ele com desapontamento em sua face e se foi.
O menino não voltou mais à loja então, mesmo sentindo saudades dela. O dono notou que a loja parecia mais vazia sem o menino bisbilhoteiro, porém estava segura apesar dos pesares. A vitrine da loja foi mudada por longas cortinas sem cor e todo brilho emanado da loja para rua cessou sem o menino por perto. A loja não olhava mais pra rua, continuava a ser visitada pelas pessoas, mas a maioria só pegava idéias e nada de novo acontecia por ali. As luzes cessaram...
Mas o menino sabia que a alma daquela loja ainda estava lá. Então, no breu da noite entrou na surdina pela loja. Sem avistar o dono precipitou-se até a gaveta. Sentado no chão abriu a caixa cuidadosamente como se dela fosse sair um grande zumbido. A luz reluziu por toda parte iluminando a loja. O menino retirou o cristal da caixa e o abraçou. Sorrindo, tremendo, o guardou junto de suas bolinhas de gude. Foi quando se deparou com o dono da loja que sonolento veio ver o que acontecia para haver luz. Tentou se esgueirar até a porta, mas foi visto, então decidiu correr.
- Você mentiu pra mim! - o dono berrou correndo atrás dele.
O menino não sabia mais o que estava fazendo quando caiu. O dono parou atônito e ajoelhou ao seu lado. Abrindo o saco onde ficavam as bolinhas de gude não havia mais luz. Havia apenas milhares de cacos, opacos como acrílico.
- Eu não menti para o senhor, eu só não sei dizer o que estava fazendo.
Sem dizer nada o dono pegou o saco de bolinhas de gude com os cacos e seguiu em direção a loja.
- Não leve a minha felicidade embora. - Pediu o menino.
- Você pode encontrar a felicidade em qualquer lugar que queira. Busque por outro coração que esteja inteiro e possa pertencer a você da maneira que você quer.
Então o dono trancou-se na loja com o coração aos pedaços. Ele continuou a cuidar da loja. Porém a alma daquela loja nunca mais foi a mesma.
PS: Sim, fui eu quem escreveu.
Ouvindo Goo Goo Dolls - Black Balloon
por Aline * 1:13 PM
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